quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Política, religião e exploração

Diogo Leão

Fato visível nestas eleições tem sido a estratégia que os candidatos José Serra e Dilma Rousseff tentaram usar para conquistar votos explorando a religiosidade do povo. Pudemos ver nas proximidades do dia 12 de outubro, dia em que os católicos brasileiros festejam Nossa Senhora Aparecida que tanto Serra quanto Dilma visitaram o santuário dedicado à santa. Santinhos com motivos religiosos foram impressos como propaganda de Serra e Dilma procurou reunir-se com líderes de cristãos popularmente conhecidos como “evangélicos”.

Os estudos de fenomenologia da religião, feitos pela linha filosófica que leva o mesmo nome, verifica que a religião é um fenômeno universal entre os humanos, que caracteriza a visão de mundo que este tem dividindo tudo o que existe entre sagrado e profano, e que conduz o homem por uma série de práticas que o leva à salvação de suas alienações. As religiões também têm seus líderes que orientam as consciências de seus adeptos conforme suas doutrinas. Os homens são capazes de suportar grandes sofrimentos por causa de suas religiões até mesmo a morte.

Estamos em um momento novo da história da humanidade onde surgiu o estado laico. Na maioria das civilizações e períodos da história o poder religioso esteve unido ao poder político, um dependia do outro. O cristianismo surgiu como religião proibida, já que no seu ambiente originário eram considerados como blasfemos entre os judeus (pois diziam que Jesus era não só o messias, mas também Deus) e rebeldes entre os romanos (pois resistiam reconhecer o imperador como divino). Nestas condições, essa religião, aportou um novo comportamento religioso no ocidente, porque ela foi possível existir de forma independente do estado. Com o decorrer da idade média a influência política do cristianismo cresceu muito, diminuindo na idade moderna devido aos regimes absolutistas onde os monarcas tentavam dominar a religião e quase oficialmente terminada na idade contemporânea, pois ainda restam alguns casos como o da Inglaterra onde o anglicanismo é a religião oficial.

No entanto, quando uma pessoa se adere a uma religião, ela o faz com todo o seu ser. Sendo assim também com sua consciência e liberdade. Isso explica a flexibilidade de abandono da religião quando essa é imposta. Na religião a pessoa movida pela fé, muitas vezes faz experiência de paz quando consegue identificar seus pensamentos e atitudes com a religião.

Algo antiético é explorar desta dimensão humana por parte de alguns para obter vantagens pessoais, usando não só a religião, como também as pessoas e no caso de exploração da religião para obter vantagens políticas, um retrocesso no progresso que a humanidade fez em conseguir viver a religião com liberdade, de forma independente do estado.

Agora dado que uma religião engloba a pessoa humana em sua totalidade, sem dúvida o indivíduo como religioso como tal também atuará na política, defendendo as suas posições e não é uma atitude democrática abafar a atuação dos indivíduos.

Por outro lado vemos também o fato de usar a religião como caminho fácil para apresentar valores, não necessitando recorrer a argumentações mais precisas. Isso mostra falta de boa vontade dos políticos debater suas propostas. A falta de reflexão e de boa vontade tende a apelar a motivos religiosos em temas polêmicos como aborto e união civil de homossexuais. Se alguém é contra o aborto ou à união civil de homossexuais tende a ser taxado imediatamente como religioso e que por isso em um estado laico não se deve levar em consideração a posição dela. Será que realmente só motivos religiosos levam a estas posições?

A Realidade dos Flanelinhas

Sabrina Assumpção (com colaboração de Diogo Leão)

Paulo Cézar tomando conta dos carros ao lado a igreja do Pe. Eustáquio
em Belo Horizonte
Ao estacionar seu carro em via pública, seja no centro da cidade ou em qualquer outro lugar mais movimentado, lá estão eles para auxiliá-lo. Os tomadores de conta, ou popularmente flanelinhas, trabalham como autônomos. Oferecem atividades como lavagem e localização de vagas para carros a fim de ganhar um trocado por esse tipo de serviço. Eles ficam na rua cotidianamente, sob sois escaldantes, e correm risco de vida durante noites desérticas, tudo, com o objetivo de receber um trocado.

“Tem gente que não reconhece meu trabalho, mas daqui que tiro meu sustento”, diz Paulo Cézar, que há oito anos trabalha como flanelinha no mesmo local. Na pracinha onde fica, mostra o que sobrou do escritório improvisado que havia montado. Parte foi varrida pela prefeitura, e queimada por outros flanelinhas que tentaram se estabelecer em seu local de trabalho. Lá, ao mesmo tempo em que escreve poesias, Paulo toma conta dos carros estacionados e faz amizade com todos que passam pela região. “A polícia daqui me dá a maior força”, fala sobre o apoio que recebe.

Segundo Paulo, a profissão é bem arriscada. Quando vê pessoas suspeitas se aproximando dos carros, ele dá um jeito de conversar, para saber de suas intenções. Mas, dependendo da situação, às vezes, liga pra polícia. “Em 2004, colocaram um revólver na minha cabeça e levaram o carro”, conta Paulo sobre incidente em que quase perdeu a vida. Mas, feliz, conta que gosta do que faz — “o pessoal daqui me trata como uma família”.

A respeito do dinheiro que arrecada, Paulo conta que não pede nada, e que cabe ao dono do carro reconhecer seu serviço e avaliá-lo — “Tem uns flanelinhas que exigem, e não é por ai, a rua é pública e dá dinheiro quem quer. Já cheguei a receber R$ 100 em época de Natal”. A colocação de cones em vias públicas é outro item polêmico no trabalho dos flanelinhas. Paulo diz que só coloca cones na rua quando é para guardar vagas para deficientes. Além disso, ele ajuda as pessoas a carregarem compras como uma espécie de serviço auxiliar ao que já faz na rua.

Legalização da atividade
Em agosto deste ano, a Prefeitura de Belo Horizonte regulamentou a atividade de lavador e guardador de carro. O reconhecimento por lei federal e municipal dessas atividades ilegaliza a atividade de flanelinha em logradouro público, sujeitanto-o à fiscalização e à aplicação de sanções. A lei já existia, mas só neste ano o código de postura se tornou expresso.

A prefeitura tem acompanhado o cumprimento da lei. O guardador ou lavador de carro deve usar jaleco e crachá registrado no SINTRALAMAC (Sindicato dos Trabalhadores, Lavadores, Guardadores, Manobristas, e Operadores de Automóveis em Estacionamentos Particulares e Lava jatos do Estado de Minas Gerais). Para o melhor cumprimento da lei, a Polícia Militar também tem acompanhado na verificação da atividade.

Ao guardadores de carro é proibida delimitação de vagas com cones nas ruas. A população pode recorrer à denuncia caso isso venha ocorrer, e o trabalhador pode chegar a perder sua licença dependendo do caso.

Regulamentado
Lúcio Lourenço, 38, é registrado como guardador de carro há oito anos. Com um molho de chaves pendurado na calça, expõe a confiança que seus clientes têm. Quando preciso, aplica rotativos nos carros que ficam sob sua responsabilidade.

Há três anos, o irmão de Lúcio, Edson Castor, 30, após sofrer um acidente se cadastrou na atividade. É pai de duas filhas e não viu alternativa como trabalho. “Nem todo mundo dá dinheiro, mas sobrevivo disso aqui”, afirma Edson.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Bispos da Igreja Católica se desentendem sobre a atuação da Igreja na política

Diogo Leão

Dom Raymond Burke

Enquanto bispos católicos brasileiros entram em desacordo sobre o modo como atuar diante da política o Prefeito da Nunciatura Apostólica que funciona como espécie de supremo tribunal do Vaticano, Dom Raymond Burke, fala de certos bispos como trágico exemplo de desobediência na fé e diz que é impossível ser católico praticante apoiando o aborto e o casamento de pessoas do mesmo sexo na vida pública. Dom Raymond Burke discursou sobre o tema no 5o Congresso Mundial de Oração pela Vida realizado em Roma dos dias 5 a 10 de outubro de 2010. O discurso foi poucos dias antes que Dom Luiz Gonzaga Bergonzini, Bispo Diocesano de Guarulhos, fizesse uma carta dirigida a todos os bispos do Brasil, manifestando seu descontentamento com a atitude de alguns líderes da Igreja Católica que apoiam candidatos que favoráveis a interrupção voluntária da gravidez e à união civil entre homossexuais.

O Congresso, no qual foi feito o pronunciamento de Dom Raymond, foi organizado pela Human Life international, organização que tem o objetivo de fazer uma oposição efetiva na sociedade ao que chamam de “cultura da morte”. Eles buscam um enfoque global a questão da vida humana desde o momento da concepção até a morte natural, atualmente contam com noventa e nove delegações em oitenta países, sendo considerada a maior organização pró-vida e pró-mulher do mundo.

“Muitos governos e organizações internacionais seguem uma agenda antivida e antifamília de forma agressiva”, denuncia Dom Raymond na abertura de seu discurso, no qual queixou que muitos católicos abraçam a falsa ideia de separar a vida pública de sua fé, ressaltando, sobretudo o fato de alguns católicos estarem aceitando a legalização do aborto e o reconhecimento civil do casamento entre pessoas do mesmo sexo. “Se cristãos falham ao articular e sustentar a lei moral natural, falham também ao dever fundamental de patriotismo e amor aos seus países no serviço do bem comum”, conclui o prefeito no apartado referente a vida pública dos cristãos.

Dom Luiz Gonzaga Bergonzini
Na carta que Dom Luiz Gonzaga enviou a todos os bispos do Brasil no dia 12 de outubro explica que fez “uma campanha contra os candidatos favoráveis ao aborto, de todos os partidos, a qualquer cargo”. Na carta também menciona uma série de ações tomadas tanto pelo partido dos trabalhadores, PT, quanto por muitos de seus membros com políticas a favor da legitimação do aborto e da união civil de pessoas do mesmo sexo. Quanto a denuncia recebida de crime eleitoral por parte de Dom Demétrio Valentini, da Diocese de Jales, e uma carta anônima ameaçando a sua vida o bispo da diocese de Guarulhos se defende dizendo, “Quero deixar claro que nunca indiquei apoio a qualquer candidato”.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Mineiros chilenos e muita generosidade dos homens

Diogo Leão

Como uma passagem do purgatório ao céu pode parecer aos olhos de muitos a experiência dos trinta e três mineiros chilenos que ficaram presos na mina de San José por cerca de dois meses. Estes homens parecem que foram resgatados das profundezas do abismo e das trevas e elevados às alturas dos céus e às luzes das estrelas. Basta digitar no buscador da Google “mineiros do Chile ganham” que descobriremos a generosidade da comunidade internacional. E por que o Brasil ficaria por fora?

O coração solidário de um empresário húngaro presenteou cada um dos mineiros com um cheque de 8 mil euros (mais ou menos 18 mil reais) para cada um. Os times de futebol Real Madrid, da Espanha, e Manchester United, da Inglaterra, superinteressados em propor exemplos de virtude para a humanidade, convidaram os heróis para verem seus jogos na Europa de modo inteiramente grátis. Como incentivo à cultura, eles também vão conhecer nos Estados Unidos, Graceland, o memorial do cantor Elvis Presley – que assim como os mineiros, não morreu. Com a intenção de elevar os ânimos dos descuidados trabalhadores, Adriana Barrientos, ex-participante de um reality show apresentado no Chile, quis homenageá-los com uma sessão de strip-tease. E para compensar o ciúme de suas esposas, uma loja de artigos femininos em Santiago do Chile, ofereceu-lhes gratuitamente roupas íntimas. Assim por diante, a comovente generosidade da humanidade continua honrando-os com inéditas meias de fio de cobre, com garrafas de vinho da vinícola MontGras, com viagens a Grécia e às praias caribenhas da República Dominicana.

Agora aqui deixo um conselho para os marqueteiros de Dilma Rousseff e de José Serra. Nesta magnífica explosão solidária internacional o Brasil não pode ficar para trás. Serra ainda pode convidá-los para conhecer as belezas de Minas Gerais pela Estrada Real, incluindo um jantar de gala por cortesia do Aécio Neves, na Cidade Administrativa em Belo Horizonte. Já Dilma, pode presenteá-los com uma viagem de cruzeiro pela costa brasileira com um encontro com Lula que lhes mostrará o futuro lugar onde a Petrobrás vai instalar as plataformas do pré-sal. Sejam bem-vindos, mineiros, ninguém aqui quer usar vocês!

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Serra e Dilma sem Marina, religião e aborto

Diogo Leão

Dilma Roussef (PT) e José Serra (PSDB) continuam incertos sobre a conquista dos eleitores que votaram na ex-candidata Marina Silva no primeiro turno das eleições presidenciáveis deste ano de 2010. Neste domingo Marina e o seu partido, o PV, anunciaram a posição de “independência”, não manifestando apoio a nenhum candidato. No primeiro debate para o segundo turno destas eleições também transmitido neste domingo já não apresentaram temas polêmicos ou temas que apelam à religião, temas entendidos como o grande atrativo à grande parte dos votos obtidos pela candidata Marina no primeiro turno.

Não só Marina tem criticado Serra e Dilma pelo viés religioso e a falta de coerência de ambos em temas polêmicos – posição sobre o aborto e casamento de homossexuais – que a campanha de ambos vem tomando, mas também os próprios líderes religiosos e outros líderes de opinião. Os candidatos vem sido acusados de oportunistas com os temas e fingidos nas atitudes.

A semana passada foi uma grande odisséia para tentar convencer o eleitorado sobre estes temas. Para mostrarem-se a eleitores religiosos tanto Serra quanto Dilma visitaram o Santuário Católico nacional em Aparecida do Norte e se encontraram com cristãos popularmente conhecidos como "evangélicos".

Também na semana passada, Dilma assinou uma carta onde diz: “sou pessoalmente contra o aborto e defendo a manutenção da legislação atual sobre o assunto”. No entanto para críticos a afirmação parece uma estratégia de linguagem já que o governo dela não será para a pessoa dela e sim para toda a nação, sendo necessário saber não sua opinião pessoal, e sim sua atitude pública.

Já José Serra, candidato que tem recebido apoio de alguns líderes religiosos acreditando que ele é contra o aborto, em 1998, como ministro da saúde, assinou um documento de norma técnica para o SUS ordenando a distribuição de material necessário e a prática do aborto até o 5º mês de gravidez conforme os casos previstos pela lei. O texto integro deste documento pode ser visto no link http://www.cfemea.org.br/pdf/normatecnicams.pdf.

domingo, 17 de outubro de 2010

Canonização de uma santa antipedofilia

Diogo Leão

Maria Mackillop (1848-1909)
Joana D’Arc, Ignácio de Loyola, João Bosco, Francisco de Assis são nomes dentre as muitas pessoas que a Igreja Católica quis colocar a memória em destaque chamando-os publicamente de “santos”. Todos eles tiveram mal entendidos com as autoridades oficiais da Igreja em determinados momentos e mais tarde inocentados. O que não foi diferente com Maria MacKillop (1842-1909), freira australiana canonizada no dia 17 de outubro de 2010 pelo Papa Bento XVI. A freira chegou a ser excomungada pelo bispo local como conseqüência de ter denunciado um padre pedófilo.

Conforme notícias divulgadas pelo serviço de informação australiano Couriermail, um documentário para o programa ABC's Compass, no ar no dia 10 de outubro, explica que Maria Mackillop, mais conhecida naquele tempo como Madre Mary of the Cross, denunciou o Pe. Keating, de Kapunda, por molestar crianças numa escola católica local.

O padre acusado de pedofilia foi removido das suas funções e enviado de volta para a Irlanda. A humilhação que tal padre teria sofrido despertou a ira de um outro padre, Charles Horan, que era próximo do bispo de Adelaide, Dom Shiel. Parece que Horan fez uso de sua influência para que o bispo excomungasse a freira em 1871, acusando-a de desobediência. Contudo seis meses mais tarde Dom Shiel removeu a excomunhão da religiosa.

Em um período difícil da história da Austrália, quando havia uma grande carência de escolas, assistência médica e assistência social, Madre Mary of the Cross, fundou uma congregação religiosa que dedicasse a estes temas, as Irmãs de São José do Sagrado Coração. Em 1869, já eram sessenta freiras da congregação trabalhando em escolas, orfanatos e abrigos para mulheres.

Na missa de canonização de Maria Mackillop, agora chamada pelos católicos de Santa Maria Mackillop, o Papa Bento XVI fez menção ao fato de que muitos australianos “tem sido abençoados com professores que foram inspirados pelo corajoso e santo exemplo de zelo, perseverança” de Maria Mckillop. De fato, “Santa Maria Mackillop” vem a ser a “primeira santa australiana”.

sábado, 16 de outubro de 2010

Vendedores ambulantes, “camelôs” ou trabalhadores legais

Depois de muito tempo na clandestinidade, os vendedores ambulantes do terminal rodoviário gozam de reconhecimento legal e estão organizados em uma associação




Diogo Leão e Sabrina Assumpção



Destino: São Paulo, mais de seis horas de viagem. O ônibus acaba de chegar à rodoviária, bate aquela sede, o que fazer? De repente, aparece à vista, homens com crachás e camisa azul, gritando “olha a água ai”. Eles aparecem carregando caixas de isopor cheias de garrafas de água, latas de refrigerante e petiscos para venda. No Terminal Rodoviário Governador Israel Pinheiro, os vendedores ambulantes antes clandestinos, hoje já não são trabalhadores reconhecidos perante a lei.

Há 15 anos, com aval da Prefeitura, foi fundada a Associação dos Vendedores Ambulantes do Terminal Rodoviário (ADVATER) em Belo Horizonte. “Para vender aqui, é necessário estar cadastrado na prefeitura e na associação”, diz Roberto Vieira, fiscal assistente da associação. Ele trabalha há mais de 30 anos como vendedor ambulante no local, e conta a respeito das melhorias em seu trabalho desde que, se uniu com colegas para formar a associação.

Roberto: "A gente trabalhava mesmo com a proibição"
“A gente trabalhava mesmo com a proibição, pois era o meio de ganharmos dinheiro”, diz Roberto. Ele também relembra da época em que já fora empreendido diversas vezes pelos fiscais, por trabalhar ilegalmente – “simplesmente chegavam e recolhiam a mercadoria. Sofríamos muitos abusos de poder”.

Uma das responsabilidades da ADVATER é fiscalizar as condições de trabalho dos seus integrantes. “Policio a condição de nosso trabalho dentro da associação, às vezes, algum integrante pode chegar para o serviço com camisa rasgada, embriagado ou algo do tipo”, fala Roberto sobre seu cargo dentro da associação.

Para sua melhor estrutura, a ADVATER, possui um depósito dentro do terminal rodoviário belorizontino, onde fica estocada a mercadoria para venda. Atualmente, um lugar, na Avenida Olegário Maciel, está sendo reformado para futuramente ser um centro de distribuição de mercadorias da Associação.

A ADVATER é gerenciada por quatro pessoas principais dentro da mesma. São elas: presidente, vice-presidente, tesoureiro e fiscal. As pessoas para ocupar os cargos, são eleitas dentro de um conselho de 4 em 4 anos, organizado pela própria instituição. Ela é composta por 54 integrantes ao todo, cada qual sabe quando pode começar a trabalhar. “Eu só posso chegar aqui às 15h, antes ainda tem outro aqui”, explica um dos vendedores que não quis revelar seu nome.

“A Associação é uma forma de trabalho justo”, diz um vendedor. Ele conta que trabalha como ambulante há 25 anos e que quando começou estava desempregado. Hoje, conta como sustenta os 4 filhos, com o dinheiro que ganha da porcentagem das mercadorias que vende todos os dias.

“Minas é luz, é raio, estrela e luar...”

Diogo Leão e Diego dos Santos
Alunos da Central de Produção Jornalística CPJ
Foto de Marden da Mota Couto


“Se os aplausos são um reconhecimento por aquilo que fiz, isso também é um reconhecimento para a terra da qual sou filho” — ou seja, Minas. A afirmação é de um certo Wanderley Alves dos Reis, muito mais conhecido como Wando, sempre lembrado pelos cenários de seus shows, repletos de insinuações sensuais — onde não faltam roupas íntimas femininas e haréns. No último dia 2 de outubro, o cantor mineiro completou 65 anos. Uma entrevista com Wando faz, de imediato, com que o repórter se lembre de pelos alguns de seus grandes sucessos — “moça” (“eu quero me enrolar nos teus cabelos, abraçar teu corpo inteiro...”) e a inevitável “Fogo e Paixão”, também conhecida como “Meu Iaiá, meu Ioiô”.

Com uma discografia de mais de 25 álbuns, o aniversariante confessa que, “quando fazemos algo que as pessoas reconhecem, é sinal de que estamos no caminho certo. Mas isso não quer dizer que você deve ficar parado, e sim que você tem muito mais para mostrar”. Wando nasceu em Cajuri, uma cidadezinha mineira na Zona da Mata, hoje com pouco mais de quatro mil habitantes. “Cajuri é uma cidade pequenininha, tem um pequeno coreto e embora já não tenha a linha de trem, a estação continua lá, onde todo mundo conhece todo mundo”, conta.

Para ele, “Minas tem uma calma que se não encontra com muita facilidade em outros estados, e embora o índice de violência tenha crescido em todo mundo, em Minas continua-se tendo um ambiente de paz”. Para o romântico cantor, ser mineiro “é saber que nasceu numa terra onde as pessoas falam e se encontram mais, têm uma gentileza muito grande — e, principalmente comem muito bem”. Apesar de estar há muito tempo ausente de sua terra natal, Wando não perdeu contato com suas origens. Tanto que, ao falar em pratos mineiros, ele se lembra logo de seu preferido, o tradicional frango com quiabo — “um típico prato mineiro e que é muito gostoso e eu recomendo a todos os turistas”.

As mulheres, que nunca estão ausentes na obra de Wando, são outra paixão sua. Com muito jogo de cintura, Wando afirma simplesmente que aprecia “a beleza das mineiras, que são totalmente diferentes das mulheres dos outros estados”. O que também não quer dizer que no coração do cantor não haja lugar para capixabas, cariocas, mato-grossense ou acreanas — “em outros estados também há mulheres bonitas, mas as mineiras são mais cativantes, têm um sotaque diferenciado, que marca muito”.

Minas é um lugar que vale a pena conhecer? Lógico. Wando citou Juiz de Fora, Tiradentes e Belo Horizonte, mas, quando se fala de Minas Gerais, para ele, a cidade ou região não importam muito. O que importa é que “é um estado cheio de mulheres bonitas”. Ah, sim, Wando lembra ainda que Minas é também a terra “de políticos famosos, pessoas que dão um direcionamento a este país”.

(Esta matéria foi feita para ser publicada no Jornal Turismo de Minas)

“Trovadores do Vale” cantam a riqueza cultural de seu povo

Diogo Leão e Sabrina Assumpção (*)

Fotos Sabrina Assumpção

Alunos da Central de Produção Jornalística CPJ



“Mostrei a riqueza dos pobres e a beleza dos leprosos!”, comenta Franciscus Henricus van der Poel, mais conhecido como Frei Chico. De naturalidade holandesa, residente no Brasil há quase 50 anos, Frei Chico é o fundador de dois significativos corais: os “Tangarás de Santa Isabel”, no qual cantam portadores de hanseníase, e os “Trovadores do Vale”. Este, formado por habitantes de Araçuaí, cidade localizada no Vale do Jequitinhonha, está completando 40 anos de existência neste mês de agosto.

Frei Chico conta que chegou a Araçuaí na década de 1960, tempo em que o Vale do Jequitinhonha era considerado pela UNESCO uma das três regiões mais pobres do mundo. “Eram oito horas de estrada de chão de Diamantina a Araçuaí. Assisti mortes de pessoas que procuravam hospital, mas não chegavam a tempo”, acentua o frade franciscano. Segundo o religioso, apesar de toda situação de pobreza, o povo do Vale sabe manifestar sua alegria através de sua arte, do seu artesanato, das suas pinturas, das suas cantigas, das suas festas. “A festa é o acontecimento no qual eles se acolhem, comem e se alegram com a esperança de que a desgraça vai acabar”, explica Frei Chico. Dessa riqueza de contexto regional e da personalidade de Frei Chico, foi que surgiu o Coral Trovadores do Vale.

O cantarolar de Dona Filó, cozinheira da casa paroquial, chamou muito a atenção de Frei Chico, quando era recém-chegado no Brasil. “Ela cantava enquanto cozinhava, enquanto tomava banho — assim comecei a aprender as cantigas populares daquele povo”, lembra. Foi daí que surgiu a ideia de formar um coral para cantar na Igreja Matriz de Araçuaí. Com a ajuda de Maria Lira Marques, sem a qual seria impossível fundar o coral, veio também a ideia de que o coral viesse divulgar a cultura popular do Vale do Jequitinhonha. “A primeira apresentação que fizemos em público, foi na inauguração do Campus Avançado, no prédio de um antigo seminário em Araçuaí”, conta Frei Chico.

Para o frade, enquanto, muitas vezes os meios de comunicação continuam impondo uma cultura individualista e alienante, o coral “Trovadores do Vale” divulga uma cultura que é vida, com seus ritmos populares como o canto de roda, folia de reis, de contradança, de batuques que falam de amor, trabalho, pobreza, migração, religião e natureza.

Depois de tanto tempo morando no Vale, a dica para os turistas só pode ser a região do Jequitinhonha, que tem um dos artesanatos mais ricos do país. Segundo Frei Chico, é pela sensibilidade dos artistas que os dramas da região se transformam numa arte que, hoje, já corre o mundo e é parte de alguns dos museus mais importantes do Brasil e da Europa.

(Esta matéria foi feita para ser publicada no Jornal Turismo de Minas)


Um ‘abecedário’ diferente

Diogo Leão
Fotos Sabrina Assumpção
 Alunos do Centro de Produção Jornalística, CPJ




“O Brazil nunca foi ao Brasil”, teorizava o poeta Aldyr Blanc, no samba “Querelas do Brasil”, eternizado na voz de Elis Regina, citando palavras como pererê, jabuti, tapir, jereba, ariranha... entre outras palavras que um Brazil com “z”, de hot dogs e downloads, insiste em desconhecer. Segundo Aldyr, o “Brazil tá matando o Brasil”. Não, se depender de alguns dos mais de 1500 verbetes do “Abecedário da Religiosidade Popular, Vida e religião dos pobres”, segundo Franciscus Henricus van der Poel. Quem? Frei Chico, um frade holandês com quase 50 anos de Brasil.

Ele, que é um dos autores do clássico “Beira-Mar”, gravado até por Milton Nascimento e pela dupla Pena Branca & Xavantinho, é coautor da obra junto com Lélia Coelho Frota, que está em ponto de bala, depois de mais de 15 anos de preparação.

O livro reúne elementos necessários para a compreensão da cultura popular, especialmente da cultura afro-brasileira, focada principalmente na região do Vale do Jequitinhonha. Nele aparecem elementos tanto religiosos quanto do dia a dia do povo — desde comidas e remédios até armas. Cada letra do alfabeto é introduzida com um desenho de Maria Lira Marques, musicista e artesã do Jequitinhonha.

O ‘Abecedário’ está destinado a artistas, jornalistas, educadores, professores, pesquisadores das áreas de ciências sociais e humanas, religiosos, e todos que desejam refletir sobre a vida e a fé dos pobres. Segundo Frei Chico, “infelizmente é comum a opinião de que a alfabetização, a organização do trabalho, a democratização da sociedade podem ser resolvidos sem a cultura. E a religiosidade popular é cultura”.

Desde a juventude, ainda na Holanda, Frei Chico sempre teve interesse pela cultura do Brasil — ele conta que ouvia muita música brasileira por lá. “Lembro-me de ter lido ‘Os Sertões’, de Euclides da Cunha, em holandês. O tradutor pedia desculpas por não conseguir traduzir algumas finezas do vocabulário popular”, conta o frade. Mais tarde, em Araçuaí, uma das cidades mais importantes do Vale do Jequitinhonha, Frei Chico teve profundo contato com a cultura popular, em diversos patamares — do artesanato à música, passando pela dança e culinária. Adicionado a sérios estudos, este contato o capacitou à elaboração da obra. O Brazil com “z” tem, agora, uma chance bem maior de conhecer o Brasil.

Retorno às demandas da população

As políticas de assistência social e o

seu contato com as necessidades da população



Diogo Leão e Sabrina Assumpção – alunos da Central de Produção Jornalística (CPJ)


“Se não tivermos dado este retorno para a comunidade, a próxima Conferência Municipal de Assistência Social não será produtiva”, diz Kleid’ Néa Martins Borges, gerente de Políticas Sociais da Regional Noroeste da Prefeitura de Belo Horizonte (PBH). Um dos motivos para isso, segundo ela, é a desarticulação entre atores sociais.

As Conferências Municipais de Assistência Social são realizadas a cada dois anos e a última de Belo Horizonte ocorreu em julho de 2009. Elas deliberam políticas conforme as demandas da população e elegem representantes. No entanto, de acordo com a gerente, há uma desarticulação entre as Comissões Locais de Assistência Social (CLAS) e os Conselhos Regionais de Assistência Social (CRAS).

Kleid’ Néa Borges ressalta ainda os desafios para melhorar a atuação das políticas existentes de apoio à população. Para ela, é preciso sinergia no trabalho para melhorar os serviços de educação, saúde e atendimento ao menor. E reforça: “Nós ainda temos o problema do orçamento, já que os recursos enviados pela união, estado e município não são suficientes para atender a todas as necessidades”.

De acordo com o site da Prefeitura de Belo Horizonte, a última Conferência Municipal de Assistência Social foi realizada em julho de 2009 e, entre suas deliberações e propostas, está a melhoria da comunicação entre as Comissões Locais de Assistência Social e os Conselhos Regionais de Assistência Social. Na Regional Noroeste de Belo Horizonte, além da desarticulação dos órgãos, o processo de implantação do Sistema Único de Assistência Social (SUAS) tumultuou as ações da Regional, segundo Kleid’ Néa Borges. “Estamos praticamente trocando a roda enquanto o carro anda”, reclama.



Constituição

A Constituição Federal assegura que a Assistência Social é direito de todo cidadão que dela necessita. Já a Lei Orgânica de Assistência Social, de 1993, determina que este serviço esteja organizado em um sistema composto pelo poder público e pela sociedade civil. As realizações das conferências de assistência social são uma etapa essencial da aplicação desse sistema. Elas primeiramente acontecem na esfera municipal e posteriormente nas estaduais e nacionais.

A IV Conferência Nacional de Assistência Social, realizada em dezembro de 2003, deliberou a implantação do Sistema Único de Assistência Social – SUAS. “Paramos de ter só políticas públicas de assistência social e passamos a ter um sistema”, esclarece Kleid’ Néa Borges, sobre o funcionamento do SUAS. Ainda segundo a gerente, agora esse procedimento tem o mesmo nome, a mesma metodologia e recebe o mesmo montante de capital proporcional conforme as necessidades em todo o país.

(Esta matéria foi feita para ser publicada no Jornal Páginas Abertas)


Caso Geisy e feminismo

Compartilho a visão do Professor João Freitas publicada na edição do Estado de Minas do dia 16/12/2009. Quando aproveitando dos fatos relacionados a estudante Geisy para comentar sobre o feminismo escreve: “quando a mulher moderna aspira a ser igual ao homem, mais parece aspirar ao direito a indignidade, ao descaramento, à descompostura, à sem-vergonhice, mais parece aspirar ao direito de surfar triunfante na onda da imoralidade”. Acredito que os movimentos feministas deviam promover mais a dignidade da mulher, valorizá-la mais. Muitas vezes pessoas que dizem abraçar ideologias feministas apresentam a mulher de forma como se o único que esta pudesse oferecer (ou vender) para sobreviver na sociedade, como se o principal campo onde ela deve se auto-afirmar, fosse a sua capacidade de sedução para o prazer sexual. Desta forma o que se afirma é a bestialidade cada vez maior que nós humanos estamos vivendo na sociedade, esquecendo de outras características, para nos afirmar naquilo que temos de mais comum com os outros animais. Mulher tem muitas outras capacidades a oferecer além da capacidade de atração sexual. Ela tem muitas outras riquezas, que não estão por igual ao alcance dos homens. Capacidades que se destacadas e otimizadas haveria verdadeiras revoluções na sociedade. Para enumerar algumas de muitas dessas capacidades, para muitos de nós basta-nos lembrarmos de nossas mães ou irmãs: elas têm uma sensibilidade maior para perceber os valores humanos e virtudes; tem uma capacidade maior para reconciliação e perdão; tem uma capacidade maior para alegrar o ambiente onde freqüentam, quando este está seco e amargo adocicando-os com mais habilidade; etc.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Essa ainda é a Voz do Brasil?

Um dos programas mais antigos do rádio brasileiro, “A Voz do Brasil” tenta algumas mudanças para fugir do anacronismo de sua imagem


Diogo Leão – aluno da Central de Produção Jornalística (CPJ)

No dia 25 de setembro celebra-se o Dia do Rádio. A Voz do Brasil, no ar há mais de 70 anos, é um dos programas de rádio mais antigos e mais conhecidos do Brasil. Trata-se de um programa de transmissão obrigatória — em horário nobre — em todas as transmissoras de rádio brasileiras, com informações sobre o governo federal. O programa, que teve origem em 1935, com o objetivo de informar à população a respeito das realizações do governo federal, foi utilizado amplamente durante as ditaduras Vargas e militar. A transmissão do programa, sempre às 19h, para todas as emissora de rádio do país, é obrigatória até hoje.

“A questão de ser obrigatório, por si só é um problema. Na televisão não vemos este caráter compulsório para garantir audiência, sabemos que o rádio é um meio de comunicação mais barato, mais popular, que atinge áreas que a televisão não. Este nível de obrigatoriedade é contraditório para a democracia”, diz o professor Rodney Souza Pereira, cientista político do Centro Universitário Newton Paiva. “O Vargas criou isso com um propósito muito claro, falar bem dele, e gerar uma imagem positiva dele mesmo para a população brasileira”, completa o professor.

Conforme o próprio site da EBC – Empresa Brasil de Comunicação, a qual se encarrega de parte da produção de A Voz do Brasil (http://www.ebcservicos.ebc.com.br), o programa, criado no Estado Novo, teve um papel central de propaganda positiva da ditadura Vargas e de outros governos. A Voz do Brasil ainda é fonte de informação de certa parcela da população. No entanto, a partir de 1985, com o fim da ditadura militar, cada vez mais aparelhos de rádios passaram a ficar desligados durante a transmissão do programa.

Reformulações

Em 1998, o programa foi reformulado, com a colocação de novas vinhetas e até mesmo com a contratação de uma apresentadora para ajudar na locução dando ao programa uma nova identidade sonora. Já em 2003, o programa passou por uma reforma editorial mais profunda. O tradicional “Em Brasília 19 horas” foi substituído por “7 da noite, em Brasília”. A parte do programa de interesse do poder executivo adquiriu um enfoque mais jornalístico e abriu os microfones para a população perguntar, avaliar e comentar os projetos do governo abordados no programa. No entanto, mesmo remixado ao ritmo de forró, samba, choro, bossa-nova, capoeira, moda de viola e até techno, “O Guarani”, de Carlos Gomes continua na abertura do informativo.

O professor Elias Santos, diretor executivo da rádio da UFMG ligado à EBC e que também leciona matérias ligadas a radio e TV tanto na UFMG quanto na Newton Paiva, afirma que não vê “A Voz do Brasil como intuito da ditadura”. Segundo o professor, “Getúlio Vargas foi fundamental para o rádio, ele liberou a publicidade no veículo e assim o rádio pôde crescer no Brasil, passando de amador à profissional”. Ele alerta que as mudanças dos últimos anos foram significativas e conta que “já houve até críticas ao governo no programa”. Hoje, o governo conta com a TV Senado e TV Câmera para divulgar suas ações, mas, lembra Elias, “os senadores e deputados não largam o osso. Eles não largam o rádio. Há lugares na região metropolitana de Belo Horizonte onde só pega rádio, e televisão só com parabólica. É muito interessante ver a força que a Voz do Brasil ainda tem”.

Apesar de todas as mudanças já ocorridas no programa, o professor Rodney Souza Pereira continua dizendo que “os tempos mudaram, que tem que ter maior flexibilidade quanto ao horário e ao tempo de audiência”. Elias Santos concorda que a obrigatoriedade de transmissão do programa em todas as emissoras do Brasil no atual horário “é uma coisa arcaica”, porém conclui que, “não porque venha da ditadura, mas sim de uma sociedade diferente, de uma lógica segundo a qual as pessoas param de trabalhar às 19h. Hoje, isso não é mais verdade. Hoje tem pessoas que trabalham à noite ou que estudam à noite”.

Quem financia é o dinheiro público

Uma das pessoas que mais influenciaram nas últimas mudanças do programa A Voz do Brasil foi Eugênio Bucci, ex-presidente da Radiobrás. Em uma entrevista publicada na revista “A Rede” (cfr. http://www.arede.inf.br/inclusao/edicoes-anteriores/48-2009-06-15-06-05-23/173) o professor comenta que “se uma manifestação pública acontece em Brasília, protestando contra a reforma da Previdência, por exemplo, e isso tem impacto sobre as decisões que o governo está tomando, é um fato que, obrigatoriamente, precisa ser noticiado na Voz do Brasil”.

Em outro trecho da entrevista Bucci comenta: “O espantoso é notícias como essa serem omitidas, como se fosse um fato que nunca ocorreu. Quando se omite um fato relevante desse tipo, o ouvinte, que só se informa pela Voz do Brasil, terá sido agredido no seu direito à informação”.

Quem financia o programa vai querer falar contra ele mesmo? Eugênio Bucci responde que o programa “depende financeiramente do dinheiro público. O dinheiro não é do governo. O brasileiro precisa de informação de qualidade sobre governo, Estado e vida nacional. Muitas áreas do Brasil dependem, exclusivamente, da informação produzida pela Radiobrás”.



sexta-feira, 18 de junho de 2010

Mantra da dicotomia

Como mantra se vem repetindo as idéias de dicotomias entre religião e ciência, entre religião e progresso, entre religião e estado laico, entre religião e jurisprudência. Porém poucas são as pessoas que tem a racional prudência para analisar o quanto são reais estas dicotomias.

Na reportagem do Estado de Minas do dia 18 de junho de 2010, ao noticiar que autorizaram o aborto de uma criança nascitura por ser anencéfala, (sem cérebro), afirmou-se que a ciência considera um feto anencéfalo como sem vida contrariando convicções religiosas. Observo que sobre esta afirmação o texto careceu das fontes. Com meus poucos conhecimentos científicos, basta usar os que adquiri no ensino fundamental para ver que carece de fundamento a afirmação presente no texto. O que define um ser como vivo, são as operações vitais (nutrição, crescimento e dependendo do estágio de vida a reprodução). O feto ainda que sem cérebro, se nutre e cresce, não cabendo ainda o juízo quanto à reprodução, pois não está no estágio do desenvolvimento adequado.

Agora quanto ao mérito da discussão para a autorização do aborto da criança anencéfala, mencionaram o argumento favorável de um desembargador que afirma que “a morte do feto após o parto já está prognosticada”. Claro que está prognosticada, se nasce vivo é óbvio que morre depois do parto. A morte é a única certeza que temos, e maior probabilidade de acontecer de forma mais breve para os que nascem mais debilitados, como é o caso dos anencéfalos. Se o fato de que vai morrer depois do parto justifica o aborto, em breve veremos a petição de autorização do aborto em caso de várias outras doenças que o feto pode vir a ter.

Aborto e exclusão

Além da cultura do samba e do futebol, existem muitas coisas para serem admiradas no Brasil, entre elas está o sentido de solidariedade e compaixão fortemente arraigado em muitos brasileiros. É de admirar o impacto que a palavra exclusão causa aos ouvidos de tantos brasileiros, e o fato de que a moda do individualismo não pega bem na sociedade do Brasil (grande parte dos brasileiros não consegue viver sem pensar, dar a opinião e até mesmo sem se envolver de forma solidária com a vida do outro). No Brasil se busca incluir na sociedade as pessoas menos capacitadas, tanto físicas, como mental e psicologicamente, buscando garantir o espaço delas no campo social, acadêmico e profissional. No entanto, mentalidades de tendência mais egoísta têm tentado modificar este quadro.

Apesar de tantas campanhas, que muitas vezes, com suporte ideológico e econômico do exterior; o aborto provocado (assassinato de uma criança nascitura) não é aceito pela maioria dos brasileiros e não tem conseguido sua aprovação legal. Entre estas campanhas está a que tenta promover o aborto dos nascituros anencéfalos. Será que depois virá a campanha que pedirá o aborto dos nascituros portadores da síndrome de Down, ou outra enfermidade? Mas, ainda bem que a maioria dos brasileiros se preocupa com a inclusão de todas as pessoas na sociedade, e não com a exclusão das menos capacitadas; atitude última muito semelhante à de Hitler e do seu regime nazista.

Neste contexto, gostaria de alentar ao casal belo horizontino e a todas as outras famílias que podem estar sofrendo com a vinda de uma criança anencéfala na família, pois o testemunho deles em acolher estes filhos descapacitados é um grande testemunho para toda a sociedade da grandeza de coração que têm. Quero alentar também o juiz Marco Antônio Feital Leite, e a todos os outros representantes do poder judiciário a quem corresponde tomar difíceis decisões sobre estes casos a continuarem lutando pela permanência dos bons valores na sociedade brasileira.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Juntos no barco de Pedro

Lugar de pescador é no barco, lugar de barco é na água, e na água existem ondas. E quanto mais água, mais ondas. Sendo assim as ondas do mar são maiores e mais fortes que as ondas de um lago. Duros são os momentos de um pescador em um barco em alto mar durante uma tempestade!

Nossa Igreja é o barco no meio do mar durante uma tempestade, e o Papa é o pescador responsável por este barco, pois Jesus mesmo o encarregou disso quando disse: “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja” (Mt 16, 18), assim desde o apóstolo Pedro a Igreja passou por uma linha ininterrupta de papas até Bento XVI (cf. Catecismo da Igreja Católica, 861 e 862).

Jesus Cristo quis fundar a sua Igreja aqui na terra com homens, tendo o apóstolo Pedro como seu primeiro chefe. (cf. Catecismo da Igreja Católica, 765). Sim, fundou a Igreja com homens, não com anjos. E nós, os homens, somos pecadores, desde o Papa até a última pessoa que foi batizada. Jesus fundou a Igreja para comunicarmos a graça da salvação através dela, para que nos santifiquemos nela (cf. Catecismo da Igreja Católica, 824 e 846). E os que estão sendo santificado na Igreja não são somente os leigos, mas os diáconos, os padres, bispos, cardeais e até mesmo o Papa. Cada um de nós, com nossos pecados, porém auxiliados pela graça estamos buscando a santidade (cf. Catecismo da Igreja Católica, 825). No entanto, a Igreja, já que é formada por homens, é uma instituição que transparece as limitações humanas também e até mesmo os pecados de seus membros (cf. Catecismo da Igreja Católica, 827).

Agora vemos uma tempestade pela qual a Igreja passa. Alguns podem se assombrar achando que Jesus está dormindo no barco, esquecendo que Ele também quer provar nossa fé (cf. Lc 8, 23). Tristemente entre seus escolhidos aparecem novos Judas e outros membros da Igreja negam Jesus novamente como o fez Pedro nas vésperas da Paixão do Senhor (cf. Mt 26, 69-75). Não devemos esquecer que a água que cai com a chuva desta tempestade purifica. A Igreja desde o tempo dos apóstolos está em constante purificação dos pecados. A Igreja é “semper purificanda” (sempre a ser purificada), ao contrário de “semper reformanda” (sempre a ser reformada), como alguns quiseram sugerir. (cf. Catecismo da Igreja Católica, 827). As tentativas de reformas (como a reforma protestante) significaram uma ruptura da unidade da Igreja, indo diretamente contra o desejo de Jesus Cristo que pediu ao Pai que fôssemos um (cf. Jô 17, 21). E o perpétuo e visível princípio e fundamento da unidade da Igreja é o Papa, sucessor de São Pedro (cf. Catecismo da Igreja Católica, 882 e Lumen Gentium, 23). A Igreja sempre se purifica dos pecados dos homens, mas é sempre a mesma Igreja, fundada por Jesus Cristo, onde os seus membros unidos buscam a santidade não somente a pessoal, mas na consciência de sermos o Corpo Místico de Cristo, a santidade uma dos outros também. Neste processo de purificação sofremos. Sofremos quando vemos os males no corpo, sofremos aos termos que tomar remédios nem sempre prazerosos, sofremos quando os ramos são podados para poder dar mais frutos (cf. Jo 15, 2). Não obstante, os nossos corações devem se encher de alegria espiritual por ver que a água da tempestade nos está purificando, nos tornando mais puros e agradáveis aos olhos do Senhor.

Sim, são duros os momentos do pescador no barco no meio de uma tempestade em alto mar. Quanta responsabilidade pesa sobre os ombros do Papa! E o que nós faremos? Buscar bóias salva-vidas e pular fora do barco? Abandonaremos o Papa deixando todo o problema da tempestade para que ele resolva sozinho? Ou vamos agora nos unir ainda mais em torno do Papa, mais conscientes do que nunca que somos Igreja? Que estejamos juntos no mesmo barco, fazendo um compromisso maior com a santidade, exercitando mais a nossa fé e todos juntos, mais uma vez dirigiremos o nosso olhar para Jesus reconhecendo o nosso nada, a nossa incapacidade de sair desta tempestade e humildemente, juntos com Pedro, o Papa, elevaremos a Deus a súplica: “Senhor, salve-nos!” (cf. Mt 8, 25). E que honra maior que a de estar no barco colocado no mar por Jesus Cristo mesmo e de sermos salvos por Ele mesmo?


sexta-feira, 26 de março de 2010

Recentes escândalos sexuais na Igreja

 Sem dúvida, o abuso sexual de crianças é um crime que clama aos céus, e quanto mais indefesas são as vítimas (como o caso de crianças surdas) com mais pena vemos a situação. O abuso feito por pessoas que ocupam uma posição de referência moral na sociedade como os padres, é apavorante. Não temos como diminuir a culpa ou desagravar os fatos. Desagravar os fatos significaria quase que dizer que eles são toleráveis, ou quase que fazer-se cúmplice deles. Porém muitas vezes, em vários veículos de comunicação, a redação das matérias não estão completas e carecem de crítica. Vemos também que as redações estão faltando ao princípio da imparcialidade. Manchetes que disseram: “Papa encobriu padre pedófilo que abusou de 200 menores surdos” ou “Irmão do Papa está envolvido com abusos sexuais” foram maliciosamente elaboradas e não retratavam a verdade dos fatos, além de caluniarem pessoas de alta representação moral causando sérias decepções e inclusive choques psicológicos em parte da população. Quem tem bons olhos críticos já percebeu que existe uma forte campanha contra a pessoa do Papa Bento XVI e que tentam desmoralizá-lo. Agora também, para quem acompanha de perto, é inegável a luta que o Papa Bento XVI tem feito para purificar a Igreja dos escândalos sexuais. Basta acompanhar algumas medidas que ele tem tomado com o clero da Irlanda, da Alemanha, e com algumas congregações religiosas. O Papa Bento XVI tem afastado vários padres do ministério, nomeado visitadores apostólicos (tipo de investigadores), tem exigido mais responsabilidade dos bispos, etc. E isso desde que assumiu o pontificado, continuando a atitude de João Paulo II que admoestou firmemente os bispos americanos sobre o tema. Agora, penso que precisamos ser maduros para compreender dificuldades humanas em solucionar estes problemas. Não vejo necessário quando se encontra algum criminoso, difamá-lo pelos quatro ventos causando escândalo. Também não é prudente punir uma pessoa de imediato quando é acusada. Primeiro deve-se investigar a veracidade e depois analisar qual atitude a tomar seria mais prudente, ainda assim com discrição. Um comentário pessoal que ilustra o caso, pergunto que se fosse um pai de família que abusasse de algum dos filhos, o mais comum seria que a esposa e os filhos denunciassem este pai publicamente na mídia, para a polícia fazendo que todos, vizinhos, amigos e conhecidos soubessem, ou tentariam solucionar o problema sem causar escândalos públicos que manchariam o nome da família? Algo análogo acontece com a Igreja. Ela tenta investigar a verdade das acusações, punir o que comete abusos, mas preferindo não fazer escândalos púbicos. Não se trata de encobrir, mas de ser discreto.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Novo Deserto (Escrito para a quaresma de 2009)

Bairros desabados, casas submersas, vale inundado... Este é o novo deserto o qual muitos são convidados a contemplar nesta quaresma.
É impossível para qualquer brasileiro ignorar o que neste verão aconteceu em Santa Catarina no vale do Itajaí. No entanto, o que mais me admirou foi a reação de muitos dos afetados pelas chuvas. Não só o ficar sem casa, sem seus pertences, fruto do trabalho de toda uma vida, mas também a perda de muitos entes queridos... Tudo isso é impactante. Porém, o não lamentar (e esta foi a atitude que mais vimos neles), o não se queixar, e o recomeçar a construir é ainda mais impactante. Não porque se mantêm de cabeça erguida diante da própria tragédia, mas porque eles souberam guardar algo, um tesouro, que a particular catástrofe não tirou.

O tesouro que ainda com essas tragédias eles souberam guardar não se improvisa. Este tesouro também, é trabalho de uma vida, fruto da cultura, da educação e do esforço pessoal. Quem conheceu estas pessoas antes deste verão, pode descrever alguns detalhes sobre como eram as suas vidas. O quão típico era numa casa o pão caseiro, a chimia, a cuca e o chimarrão; ao invés da coca-cola, o hambúrguer comprado pronto e o Ketchup. Os meninos jogavam taco ou futebol com os vizinhos e parentes, ao invés de jogos eletrônicos sozinhos com o computador. O trabalho era árduo, mas com animo e amor.

Assim, eles viviam uma vida ancorada no necessário. Vida alegre, feliz, mas austera. Não quero dizer que a comida concreta, a diversão concreta e o trabalho concreto seja o tesouro; mas que o fato de manterem a simplicidade nestas coisas, não solenizando-as com o luxo e ainda assim serem felizes manifesta um tesouro mais valioso que todas estas coisas.

A quaresma é o momento em que os cristãos fazem memória dos 40 dias que Cristo passou no deserto. Ali, Cristo, estando só, jejuou para se preparar para a sua missão no mundo. Neste ano, podemos aprender de Cristo presente nos habitantes do vale do Itajaí. Cristo pode estar de botas para andar no barro, de barco para se mover nos alagamentos... Ali, mostra que não é no luxo do que se come, no possuir muitas riquezas através de um trabalho “chic”, ou na diversão caprichosa e nem no querer escapar dos contratempos que nos vem que está o tesouro da felicidade. Quem é feliz de verdade, ainda que perdendo muita coisa, sofrendo, continua sendo feliz.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Deus com cara de Neandertal

Muitas vezes, tenho escutado comentários, muito humanos eles, e por isso compreensíveis, sobre como compreender o versículo 26 do 1o capítulo do livro do Gênesis, onde na narrativa da criação se lê que Deus diz: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança.”. Alguns, até mesmo, tentam colocar esta narrativa como polêmica para aceitar a teoria da evolução, pois pensam que se o homem tivesse chegado a ser homem com um aspecto físico diverso do atual, não saberiam compreender esta semelhança de Deus.

Para muitos de nós, incluindo eu, na nossa imaginação por muito tempo ficou a imagem de Deus como um velhinho com barba branca e longa, com um rosto de aparência grave e ao mesmo tempo bondosa; e ainda que o chamemos de “Pai”, podemos lembrarmo-nos dele mais como avô. É compreensível, que em algum momento tenhamos esta imagem, ao final, somos humanos e todos os nossos conhecimentos de alguma forma acontecem através dos cinco sentidos (visão, olfato, audição, paladar e tato), isto é estamos imerso no mundo material e a forma natural de conhecer as coisas é através dele.

Porém, na tradição judaico-cristã, Deus é considerado como espírito, isto é, imaterial. Aí começam nossas dificuldades. Por que? Porque se é imaterial não podemos IMAGINAR, não podemos fazer uma IMAGEM d´Ele. Muitos de nós tendemos a imaginar espírito como fantasmas, mas se fantasmas existissem, ainda assim eles seriam materiais. O que é ser imaterial? É ser o contrário de material, é não ter as propriedades da matéria. E as propriedades da matéria são aquelas que captamos pelos cinco sentidos. A visão percebe a cor então, Deus não tem cor. O olfato percebe o cheiro então, Deus não tem cheiro. A audição percebe o som então, Deus é não faz ruído. O paladar percebe o sabor então, Deus não tem sabor. E o tato percebe a extensão então, Deus não tem extensão. Também além destes cinco sentidos externos, para auxiliar nossa percepção, nós temos sentidos internos que unificam as informações adquiridas pelos sentidos externos e nos permite perceber coisas como tamanho, volume, a distância etc.

Então, por que dizem que o homem é “IMAGEM e semelhança de Deus”? Porque de fato o somos. Porém temos que entender que sempre que vamos falar de realidades espirituais, ou seja imateriais, fazemos analogia. Analogia é quando usamos palavras com significado comum entre nós, para descrever uma realidade que está mais além destas palavras. Fazendo analogia dizemos que Deus anda, que Deus fala, etc... Sem também descartar a possibilidade de que Ele como Deus todo poderoso, pode fazer o uso do poder d’Ele e se manifestar a nós inclusive com características materiais. O dizer que o homem foi criado à imagem de Deus significa que o homem também é espírito, que o homem é capaz de conhecer, de amar e é livre para escolher seus atos. Que o homem é também pessoa, que o homem não é uma coisa para ser usada como objeto, e que sim tem uma dignidade. E não vejo problema para um cristão ou judeu em aceitar a teoria da evolução.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Legislação e Moralidade

Muitas coisas na teoria parecem ser mais simples. Muitos problemas parecem estar resolvidos. No entanto, a realidade, os fatos, o dia a dia, o estudo mais profundo, pode levar-nos a pensar mais. Por que depois de tantos séculos, ou até mesmo milênios de reflexão filosófica sobre uma sociedade melhor ainda não se têm obtido os resultados desejados? Desde os inícios da filosofia se fala de uma natureza humana, se discute sobre comportamentos éticos adequados a esta natureza, sobre como educar os homens para viverem de acordo com esta natureza. Assim está o tema da relação entre a ética e a lei. Aos olhos mais simples parece claro que a lei positiva deve refletir a lei natural, que a lei natural é uma ética universal para todos os homens, que a lei positiva deve servir para que o homem se realize, para que o homem seja feliz.

Mas o que fazer diante de uma sociedade pluralista, onde os indivíduos têm diversas visões da moral, diferentes concepções éticas. Deve-se impor a moral por meio da lei? E moral de quem se deve impor? Em New York, devemos dispensar os alunos das aulas para que possam participar das celebrações da semana santa quando muitos dos estudantes já não são cristãos? Ou já que muitos são hinduístas dever-se-ia lembrar as datas importantes de suas celebrações? Se na França querem proibir o uso de símbolos religiosos em alguns lugares públicos porque estão sentindo-se molestados com alunas mulçumanas que vão à escola com a cabeça coberta com véu, dever-se-ia também proibir os cristãos de usarem o crucifixo no pescoço? Uma vez que na Itália permitimos publicamente colocar imagens católicas em praça pública por termos liberdade religiosa e de expressão, está bem que alguns coloquem cartazes dizendo que Deus não existe em lugares públicos? Pode-se permitir que pessoas do mesmo sexo contraiam matrimonio e adotem filhos? Por que não, se na consciência deles está moralmente bem e não “ferem” ninguém com este comportamento. Por que se deve lhes impor outra moral? Por que alguma moral é melhor? Por que alguém teria direito a impor a sua moral? Está bem permitir que em nome da liberdade de expressão que um indivíduo se manifeste publicamente oralmente e por escrito sobre seu desacordo da forma do atuar moral de outro? Este outro não poderia recorrer à justiça por danos morais ou por difamação? Aplicando isso de forma mais concreta, um líder religioso cristão não poderia manifestar seu desacordo pelo comportamento homossexual de alguns? Ou um líder religioso mulçumano manifestar seu desacordo pelo tipo de vida pública que as mulheres estão alcançando na sociedade?

O que fazer num estado democrático onde em um plebiscito, a legalização do aborto, da droga, da eutanásia, da prostituição, etc. ganharia? Já que a maioria quer. Ao final das contas, se trata ou não de sociedade democrática? E neste caso, o que fazer com a minoria? E se não tratasse de democracia, mas de uma monarquia católica num utópico estado, onde todos os indivíduos são católicos, estaria bem o estado fazer que os cidadãos vivam de forma pobre para alcançarem maior santidade como Scalia, membro da Corte Suprema dos EUA, ironizava num discurso feito na Universidade Gregoriana em Roma?

Então, o problema está em como articular a lei positiva e a moralidade. Se for possível alguma relação, quais seriam os limites desta relação?
Sociedade composta por indivíduos

Como principio geral, independente de estar numa sociedade pluralista, penso que se deve respeitar a dignidade da pessoa humana. Pessoa que é um indivíduo que faz experiência intransferível que tem a sua própria consciência que lhe mostra os valores e liberdade para abraçá-los. Desenvolvendo este principio se compreende que seria contra a dignidade deste indivíduo fazê-lo atuar contra a sua consciência.

No entanto, como nenhuma pessoa está só, mas sempre em sociedade, e é na sociedade onde se realiza formando a própria consciência e onde exerce a sua liberdade. Na sociedade cada indivíduo está em relação como outros indivíduo-pessoas que também possui a mesma dignidade. A relação entre pessoas que tem seu momento na sociedade é o principal fator que colabora para o progresso de cada indivíduo a sua realização. Nela as experiências são compartilhadas, uns aprendem dos outros e uns ajudam os outros. Nenhum indivíduo-pessoa tem a possibilidade de por si mesmo esgotar as experiências possíveis à espécie humana, pois todo indivíduo-pessoa é limitado a várias condições como tempo, espaço e até mesmo habilidades e disposições que variam de indivíduo para indivíduo. A sociedade é o palco da história humana e do seu progresso. No ato transeunte de um individuo a outro indivíduo como o ajudar e o educar cada indivíduo, de certa forma, descobre a sua semelhança no outro e percebe que saindo de si mesmo, sem deixar de ser si mesmo, se realiza a si mesmo, ele descobre que é capaz de ser mais do que como se fosse só para si mesmo, o indivíduo-pessoa é capaz de ser para outro. Assim ele descobre que tem não só direitos (o que pode fazer), mas também deveres.

Assim a sociedade se formou naturalmente, existindo desde quando existem pessoas e sendo sempre sociedade de indivíduos-pessoas. E começou a ser organizada tornando cada vez mais explícito os direitos e os deveres, estes devendo ser aperfeiçoados na medida em que a sociedade vai os percebendo com maior clareza, e sendo corrompidos na medida em que a sociedade ofusca sua visão sobre eles. Uma sociedade menor pode alcançar de forma mais rápida uma maior clareza sobre a sua visão de direitos e deveres, já que existem experiências deste fato quanto existem de pessoas e quanto maior o número de pessoas maior a possibilidade de divergências. Contudo quanto maior o número de pessoas que consigam concordar suas visões dos direitos e deveres, maiores e mais meritórios foram os resultados, maior foi o progresso e maior possibilidade de estarem mais próximos da verdade. Por isso defendo a possibilidade de um código de direito internacional.

Aplicando os direitos e deveres nas circunstancias particulares, para respeitar a dignidade de cada um deve-se sempre buscar a conservação da sociedade e o respeito da dignidade dos indivíduos. Assim que para manter a sociedade deve-se buscar manter o vínculo entre os indivíduos respeitando a sua liberdade e a sua consciência. Assim não está bem estabelecer leis (que é a oficialização perante a sociedade dos seus direitos e deveres) que a maioria dos indivíduos não estão em disposições de cumpri-las, assim como não se poderia deixar de garantir o vínculo da sociedade e o respeito pela dignidade dos indivíduos com também o estabelecimento de leis.

Deve-se respeitar a liberdade do indivíduo em querer ou não fazer parte de uma determinada sociedade. Assim que uma lei que provocasse que a sociedade se dissolvesse não deveria ser estabelecida, como também não deveria ser estabelecida aquela lei que ainda que a sociedade se conservasse, os indivíduos não estariam sendo respeitados em sua dignidade. Assim a fonte de onde deve emanar a lei é o acordo dos indivíduos da sociedade, que juntos buscam a realização uns dos outros. A qual sendo assim, naturalmente estaria procedendo das concepções que os indivíduos têm do bem e por conseqüência da moral. A emanação da lei no acordo entre os indivíduos pode suceder de várias formas. Pode acontecer numa democracia, onde todos os indivíduos participam das decisões sobre toda a sociedade como manifestação do acordo comum, pode acontecer numa monarquia onde também todos os indivíduos devido a sua cultura estão de acordo com que o monarca proclame as leis. Da mesma forma que em determinados momentos culturais a jovem permite que os pais decidam sobre o seu matrimonio e não por isso contesta se o matrimonio foi lícito ou não e assim mesmo está contente.

No entanto as leis proclamadas nunca são definitivas absolutamente, já que a sociedade na história e em diversos lugares pode em algum momento estar vendo com maior ou menor clareza seus direitos e deveres e por isso a lei deve estar conforme esta visão. A natureza não falha aos indivíduos, mas sim são os indivíduos que falham à natureza, por isso a natureza de algum modo sempre conduzirá os indivíduos a clarificar sua visão dos direitos e deveres. Não obstante, é dever de cada indivíduo expor e lutar por defender sua visão com suas razões para o bem de toda a sociedade e o bem individual, para evitar que se ofusca a visão de bem da sociedade. Este é o objetivo do diálogo, pois um indivíduo honestamente expondo sua visão com suas razões em confronto com outro que também o faz honestamente tende a prevalecer a que faz mais sentido, pois a razão menos inrazoável cederia a mais razoável. Em caso de dúvida pode-se recorrer ao debate público para que outros indivíduos ajudem a clarificar a visão de um e do outro indivíduo. O diálogo e o debate levam a sociedade a tomar maior consciência e analisar as próprias leis e averiguar a conveniência de modificá-las. Aqui se verifica que às vezes se devem tolerar atitudes e comportamentos que ainda que não sejam aprovados por uma parte dos indivíduos nem todos tem a mesma disposição para vivê-los. Mas o limite desta tolerância é a maioria, não obrigando o indivíduo atuar contra a sua própria consciência, mas não permitindo que cometa atos contra a consciência geral. Por exemplo, um indivíduo não está obrigado a praticar determinada religião e por isso não está obrigado a freqüentar os templos de determinada religião, ou contrair matrimônio nos parâmetros daquela religião, mas tampouco pode cometer atos que não permita que os outros indivíduos pratiquem aquela determinada religião, como o fazendo trabalhar nos momentos que os outros estão reunidos no templo, ou contrair matrimonio em forma que agride os membros da religião da maioria ou ainda cometer certos atos que pode influenciar negativamente outros indivíduos na vivencia de dita religião, caso a maioria quis que a lei assim o contemplasse. Não é a maioria que define a conveniência da lei, mas na maioria se encontra um campo mais rico de experiências dos diferentes indivíduos que compartilhadas leva a uma visão mais clara dos direitos e deveres. O indivíduo pode vir a sofrer a opressão da maioria da sociedade caso não consiga expor suas razões de forma convincente à maioria da sociedade. Neste caso ou ele se exila da sociedade ou aceita a maioria. Nem toda moral está proclamada pela lei, mas as proclamações da lei sempre são morais. A moral é universal e a lei particular.

Algumas aplicações

Na sociedade pluralista e relativista atual nos corresponde formar a opinião da maioria. O positivismo sem referimento a moral se vê que pouco a pouco vai se desabando. Episódios como o do julgamento de Nuremberg em que viram a necessidade de condenar colaboradores de Hitler com critérios superiores ao da lei positiva vigente, o que foi então chamado crimes contra a humanidade é um bom sinal. Vejo nisso um sinal que a humanidade ainda que se afaste da moral natural, a natureza não muda e a razão não pode afastar-se dela definitivamente. Também se vê pelo mesmo motivo que lei positiva não justifica o agir humano, somente por ser positiva. A única lei que justifica o agir do homem é a lei natural. Um médico que pratica o aborto nunca poderá justificar-se por agir sob a lei positiva, pois estão cometendo crimes contra a humanidade.

Ainda que a lei não justifique o agir moral, ela o incentiva ou o corrompe. Também se deve considerar a inconveniência de sustentar leis contra as disposições dos indivíduos com penalizações, neste caso não se pode esquecer que a lei também educa transmitindo certa concepção moral aos indivíduos e que ainda que algum princípio não venha a ser enforcado com penalizações, não significa que a lei não possa estar enunciada na lei. Esta não é a melhor situação, mas pelo menos deixa claro alguns princípios que mais tarde pode ajudar para outras elaborações jurídicas, ou para simplesmente não permitir muitos equívocos na interpretação da moral. Por exemplo, no Brasil o aborto é sempre considerado crime, mas despenalizado em alguns casos. A despenalizaçao não se entende como legalização. A despenalização significa reconhecer as limitações dos homens em agir virtuosamente em algumas ocasiões, mas que ainda assim não estão agindo corretamente. A legalização já tem uma conotação de aprovação moral de algumas ações. Acho que isso é uma boa idéia para os políticos que correspondem votar para a aprovação de leis. Talvez assim estivessem evitando certo mal maior e não se distanciando da moral que acredita. Isso não significa que, nesta matéria, uma lei mais restritiva possa considerar-se uma lei justa ou, pelo menos, aceitável; trata-se, pelo contrário, da tentativa legítima e obrigatória de proceder à revogação, pelo menos parcial, de uma lei injusta, quando a revogação total não é por enquanto possível”.

Na sociedade democrática não nos cabe alternativa fora dos mecanismos democráticos. E estou de acordo com Scalia que disse que nos cabe exercer influencia na opinião pública. Se algum momento não vivemos em sociedade democrática, teremos que elaborar alternativas para zelar pela aplicação da lei natural. Por isso a importância de nunca se esquecer da educação e do cuidado da juventude.